Eu te compreendo, jovem esquerdista.

Eu te compreendo, jovem esquerdista Por: Geraldo Batista Junior (Bacharel em direito pela UFCG, Mestre ...







Eu te compreendo, jovem esquerdista




Por: Geraldo Batista Junior (Bacharel em direito pela UFCG, Mestre em Ciências Jurídicas pela UFPB e Universidade Federal da Paraíba; Professor Universitário)

“Lutar por um mundo melhor, sofrer pelo sofrimento do próximo, reivindicar “justiça social”, entrincheirar-se por uma melhor distribuição de renda, não são lutas exclusivas suas, jovem esquerdista. Os métodos podem ser diferentes, mas outras pessoas que não pensam do teu modo também gostariam de modificar uma sociedade tradicionalmente patrimonialista como a brasileira. O caso do nosso país, inclusive, guarda peculiaridades que talvez você desconheça. Ainda não tivemos um governo que não prometesse aquilo que você usa como lemas e bandeiras de luta.
Disseram a você que a perspectiva intelectual da esquerda é mais inteligente, é mais justa, é a mais correta. Você foi levado a entender que a teoria poderia criar e mudar o mundo, ou melhor, a forma como você vê o mundo. E você tomou como absoluta a visão intelectualizada da vida, com menosprezo pragmático, a fim de reivindicar para si próprio a condução da parte que lhe cabe conduzir à redenção pela “luta coletiva em benefício de todos”.
Mas será que te disseram que a vida não é vivida apenas na instância intelectual? Nós temos que admitir os nossos aspectos biológico e o emocional. E foi por conta deste último que talvez você tenha ido para o movimento político que te cooptou por uma espécie de afinidade eletiva. Mesmo que você tivesse buscado conhecer pelo intelecto semelhanças com outras pessoas, a tua feição emocional te induziu à essa escolha.
Você não parou para pensar que outras pessoas estão lutando para diminuir a desigualdade social, primeiramente a partir da luta pela sobrevivência delas mesmas. No entanto, você as chama de individualistas e egoístas. Ora, como seria possível para uma pessoa que sofre as limitações da existência material, deixar de lutar pela própria sobrevivência e colocar-se no lugar dos outros, lutando por eles? Ela simplesmente fracassaria. Revoluções ocorreram não apenas através da luta coletiva (ou pela violência). E também existem egoístas de esquerda. São aqueles que lutaram pelo bem comum até ocuparem algum cargo. Existem os que, de outra parte, conseguiram distribuir renda sendo “egoísta”.
A sua visão parcial de como funciona o Estado, de como deveria ser exercido o governo, te condenam, pois é o teu entendimento limitado que faz de você um artífice da dissidência que desnobrece o consenso exigível sobre as regras que devem ser aceitas numa democracia. Não confunda consenso com concordância. Eu posso discordar de ti, mas o respeito ao consenso me leva a respeitar a tua opinião, pois eu respeito as regras discursivas democráticas. Existem questões objetivas irrefutáveis: não é possível criar um Estado sueco para uma sociedade como a brasileira. Não é possível que as instituições 


públicas funcionem em grau ótimo quando a sociedade está aquém de uma moralidade objetiva. Os poderes constituídos, a polícia, etc., são reflexos da sociedade. Entretanto, você pretende um Estado paternalista, promotor de políticas públicas, e de outra parte, uma polícia não opressora. Assim você confunde as funções públicas diversas em sua natureza institucional.
Você é relativista nos argumentos teóricos, mas não consegue relativizar na prática. Você ataca a meritocracia, mas não se deu conta que você está lutando por uma forma de meritocracia. Do seu modo, você gostaria que não existissem privilégios – eu e uma imensidão de pessoas também não gostaria -, sem saber claramente que a existência de privilégios é um óbice para a busca de igualdade dentro de uma sociedade tão complexa, por intermédio da meritocracia.
Não é fácil encarar a dura realidade em saber que, na sociedade na qual se vive, o respeito aos valores das capacidades e competências individuais, em inúmeros casos, são deixados de lado, havendo até mesmo burla em concursos públicos, favorecimento de pessoas em funções públicas que não exigem competição via certame público, em detrimento da exigência do conhecimento técnico suficiente para ocupar determinados cargos. Estar às voltas com um Estado que seria o responsável pelo reparo às injustiças, pois ele seria impessoal, parece confortável, mas você não se deu conta que você também paga as contas desse mesmo Estado, e este, muitas vezes, através de alguns serviços e ações não é tão impessoal assim.
O dia-a-dia numa sociedade tão desigual, realmente não é moleza. São tantas operações mentais que um jovem tem que fazer que “surtar” não é incomum. Surgem muitos questionamentos sobre muitas evidências: por que é tão difícil sair da pobreza – mesmo para você que é daquelas “esponjas” que não tem tantas privações, entretanto é empático à situação alheia -; por que a ascensão social fez uma pessoa esquecer o seu semelhante; por que os ricos não distribuem os bens; por que as pessoas se relacionam com as outras não por serem pessoas apenas, mas pela posição social delas (?). Talvez, a divisão social do trabalho não seja a mais justa dada as disparidades remuneratórias que temos, mas é ela inexorável, ela está aí. E as pessoas podem escolher, ou serem induzidas a escolher por inúmeros imperativos. O que há de mais impróprio é a desigualdade tão acentuada ocasionada por uma divisão social do trabalho extremamente distorcida em seus fundamentos. O exemplo emblemático do tratamento salarial dado ao professor neste país é bastante para eu reconhecer esse tipo de injusta divisão social do trabalho. Mas falta um questionamento para si próprio, jovem: vale a pena lutar? Por quem? De que modo?
Eu diria que você fez e deverá fazer escolhas, certas ou erradas, não cabe aqui um julgamento implacável sobre a forma como você pretende socorrer a sociedade. À cada um a sua intransferível experiência de vida. À medida da conquista da maturidade você vai se deparar com algumas “necessidades”: morar sozinho, ou em companhia de uma ou mais pessoas; terá pretensões profissionais – e nesta seara você verá a dureza do mercado e como ele e o setor público, muitas vezes, desnobrecem o mérito; você vai desejar adquirir bens; terá maiores responsabilidades; vai fazer compras no supermercado – olha o mercado de novo -; enfim, um mundão de coisas.



E por que eu te compreendo? Porque eu não te entendo. Se eu apenas entendesse, manteria uma distancia razoável da tua realidade que é a minha também. E eu já estive nas fileiras da esquerda. Assim sendo, prefiro te compreender, afinal estamos na mesma sociedade - de um modo a ter resguardadas nossas posições, sentimentos, emoções, preferências de modo peculiar a cada um de nós, entretanto, estamos juntos. Ah, e tem mais uma coisa: não se inspire em pessoas, procure antes entender as ideias que elas professam. As pessoas são suscetíveis às mudanças de postura comportamental, política etc. Já as ideias podem ser assimiladas de modo ponderado por você mesmo sem intermediação de algum “iluminado”, ou com a ajuda de discussões não unilaterais. E por tudo que te interessa, preservada a tua individualidade, você não será necessariamente um egoísta por lutar por si próprio”.

Marilsa Prescinoti
 

 

 




 

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